Ficção não faz mal a ninguém
O olhar e o silêncio
A praça de alimentação do shopping estava lotada como de costume. Todos os dias, muitos aguardavam em filas imensas o momento de comprar suas refeições. Vozes, risos, máquinas registradoras, talheres e o sistema de som ambiente uniam-se num só ruído homogêneo e frenético.
Por volta de meio dia e meia, uma moça conseguiu um lugar para se sentar. Pousou a bandeja e a bolsa antes equilibradas com dificuldade sobre a mesa de tampo bege. Com um só movimento violento, abriu embalagem transparente que abrigava os talheres plásticos e o único guardanapo a que teria direito naquela refeição. Passou a bolsa para o colo, abriu a lata de refrigerante e verteu a metade sobre um frágil copo descartável, com a displicência de quem já fizera isso mil vezes. O tempo de almoço era escasso e teria que comer rápidamente. O sabor era um luxo do qual ela há muito esquecera.
Após algumas garfadas apressadas, algum instinto a fez erguer a cabeça. A alguns metros de distância, uma figura a encarava. Um homem corpulento, trajando um terno preto e usando óculos escuros, permanecia imóvel, fitando-a. Sem pensar duas vezes, ela virou os olhos para baixo e continuou a comer. Logo depois, ela ergueu os olhos e novamente o olhar do homem cruzou o seu. Intrigada, ela continuou o almoço, mas num ritmo mais lento. Um terceiro olhar na direção do homem e lá estava ele encarando-a.
Perturbada, a moça desviou o rosto. Começou a imaginar o motivo de ser observada: seria ele um assaltante escolhendo a sua vítima? Ou um pervertido, desejando atacá-la na saída do shopping? Talvez fosse ambos. Poderia apenas ser algo mais inocente como um admirador. Sim, um admirador! Esse pensamento a confortou e trouxe um leve rubor ao seu rosto.
Um novo olhar mais discreto na direção do homem de terno negro não deu mais pistas do que os anteriores. A rígida figura nem mesmo comia! Ela decidiu não mais levantar os olhos. Anormal depravado! Uma sensação de agonia correu-lhe a espinha. A comida descia com dificuldade. Ela mal respondeu quando a senhora sentada à sua direita pediu licença para levantar-se.
Pensou em chamar a segurança. Olhou em volta, procurou por alguém que pudesse ajudá-la. Nenhum vigilante por perto. Seus olhos a traíram e ela mais uma vez estava voltada na direção do homem. Encarou mais do que a prudência aconselharia. Nada. O homem permanecia exatamente como antes.
Mudo.
Três jovens rapazes usando camisas brancas dividiam a mesa com ele. Gesticulavam, falavam alto e riam muito enquanto comiam sanduíche. Apenas a figura de terno preto abstinha-se de falar. Uma mudez que rasgava metros de ruído intenso para atingi-la. Um olhar penetrante, que saía por detrás daqueles óculos escuros e que a tocava, que violava a sua privacidade.
Tentando não mais pensar no assunto, ela olhou para o relógio. Fez uma expressão de pressa. Devorou o final do almoço, bebeu a metade do refrigerante que havia no copo num só gole e levantou-se antes de usar o guardanapo. Enquanto colocava a alça da bolsa sobre o ombro, um menino de uniforme escolar passou correndo, dando-lhe um esbarro. Ela deu as costas para a direção onde o estranho estava e deixou a praça de alimentação rapidamente.
Não percebeu que a criança que nela se chocara continuou correndo até derrubar um manequim que trajava preto alguns instantes depois.
:: Eduardo 4:03 PM [Clique aqui para comentar] ::
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